Economia da Argentina: renda acaba antes do dia 20 para 65,3%, diz pesquisa
Levantamento da Zentrix ouviu 1.438 pessoas; dados do Banco Central também mostram alta da inadimplência entre famílias.
A economia da Argentina tem um sinal de aperto no orçamento das famílias: 65,3% dos entrevistados pela consultoria Zentrix disseram que a renda se esgota antes do dia 20. O levantamento, divulgado em 24 de outubro de 2026, ouviu 1.438 pessoas em todo o país e provocou uma discussão pública depois que o presidente Javier Milei contestou os resultados.
A falta de dinheiro no decorrer do mês leva parte dos entrevistados a buscar empréstimos para despesas cotidianas, segundo a Zentrix. Os números mostram diferenças por renda e idade, mas um economista ouvido pela DW pondera que as respostas também expressam a sensação de restrição financeira, e não necessariamente que as pessoas deixem de ter qualquer recurso até o fim do mês.
Como está a economia da Argentina em 2026?
O levantamento aponta dificuldades para pagar gastos ao longo do mês, enquanto os dados de crédito indicam que mais famílias têm problemas para honrar dívidas. A pesquisa da Zentrix não mede, por si só, toda a economia argentina: ela registra a situação relatada pelos entrevistados.
Percentuais relatados em pesquisa da Zentrix.
- 65,3%Antes do dia 20Total de entrevistados
- mais de 83%Menor rendaSem recursos até essa data
- 72%Menos de 40 anosDinheiro acaba antes do fim do mês
- 61,9%Renda mais altaChegam ao fim do período e poupam
Entre os participantes com menos de 40 anos, 72% afirmaram que o dinheiro acaba antes do fim do mês. No grupo de menor renda, o índice supera 83%. Já entre os entrevistados de renda mais alta, 61,9% disseram conseguir atravessar o período e ainda guardar dinheiro.
Por que a renda acaba antes do fim do mês?
O recurso a empréstimos aparece como uma forma de cobrir despesas básicas. Mais da metade dos entrevistados havia tomado dinheiro emprestado nos seis meses anteriores à pesquisa, segundo a Zentrix.
A economista Mercedes D'Alessandro descreveu à DW outras formas de lidar com o orçamento apertado: comprar fiado, contar com ajuda de parentes, atrasar contas ou reduzir a qualidade da alimentação. Os relatos não indicam que todas as pessoas pesquisadas recorram às mesmas alternativas.
A inadimplência aumentou na Argentina?
Sim. O Banco Central da Argentina informou que, em julho de 2026, 12,94% do crédito bancário concedido às famílias estava em situação irregular. Em agosto de 2025, a proporção era de 6,6%; em agosto de 2026, recuou ligeiramente, para 12,81%.
O economista Juan Massot considera necessário separar a percepção de aperto dos indicadores econômicos. Segundo ele, algumas famílias chegam ao fim do mês, mas cortando compras e atividades de lazer. A alta da inadimplência, por sua vez, é um dado sobre a dificuldade de pagar empréstimos já contratados.
A economia argentina melhorou ou piorou com Milei?
Os dados apresentados não permitem comparar toda a economia antes e depois do início do governo de Javier Milei. Massot afirmou que a queda do PIB per capita argentino se estende por cerca de 15 anos, portanto antecede a administração atual.
O cálculo da cesta básica alimentar também é alvo de questionamentos. Segundo o INDEC, os padrões de consumo usados em sua composição vêm de pesquisas de despesas realizadas entre 1996 e 1997 e validadas com informações de 2004 e 2005; os preços, por outro lado, são atualizados mensalmente.
Milei colocou em dúvida a pesquisa da Zentrix. O diretor da consultoria, Claudio Montiel, afirmou à DW que o endividamento ajuda a explicar como as famílias cobrem os gastos depois que a renda se esgota. Já Martín Kalos, da consultoria EPyCA, avaliou que parte de uma eventual alta de renda pode ser direcionada ao pagamento de dívidas atrasadas, em vez de aumentar o consumo.
Foto de capa: Quirinale/Wikimedia Commons (Attribution)
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