Mercado
Gestão financeira

Quanto cobrar por um produto: custos, markup e margem de lucro na prática

Para chegar ao preço de venda de um produto, você precisa de quatro números: o custo direto de cada unidade, o percentual das despesas fixas, o percentual das despesas que acompanham cada venda (impostos, taxas, comissões) e a margem de lucro desejada. A forma mais segura de juntar tudo é o markup divisor: preço = custo direto ÷ (1 − soma dos percentuais). Com um custo de R$ 20 e percentuais somando 45%, o preço fica em R$ 20 ÷ 0,55, cerca de R$ 36,36. A seguir, cada parte do cálculo, com exemplos e os erros que fazem muita gente vender bastante e lucrar pouco.

Os quatro números que você precisa levantar antes

1. Custo direto por unidade

É o que você gasta para ter cada unidade pronta para vender: a mercadoria ou a matéria-prima, a embalagem, a etiqueta, o frete da compra dividido pelas unidades. Se um fardo com 24 garrafas custa R$ 72 e o frete do pedido foi R$ 24, o custo de cada garrafa é (R$ 72 + R$ 24) ÷ 24 = R$ 4.

2. Despesas fixas em percentual

Aluguel, energia, internet, salários, contador, sistemas e o pró-labore do dono existem mesmo sem venda. Some o total do mês e divida pelo faturamento médio mensal. Por exemplo, despesas fixas de R$ 6.000 e faturamento médio de R$ 30.000 dão 20%. Isso significa que cada real vendido precisa reservar R$ 0,20 para as contas fixas.

3. Despesas variáveis sobre a venda

São as que acompanham cada venda, sempre em percentual do preço: imposto sobre o faturamento (no caso da microempresa do Simples Nacional), taxa da maquininha, comissão de vendedor, comissão de marketplace, frete grátis que você absorve. Quem é MEI paga um valor fixo mensal de imposto, que pode entrar nas despesas fixas. A diferença de tributação entre os dois formatos está explicada no comparativo entre MEI e ME.

4. Margem de lucro

É o percentual que você quer que sobre depois de pagar tudo. Não é o que o dono retira para viver (isso é o pró-labore, que já está nas fixas); é o que fica para reinvestir, formar reserva e crescer.

Fórmula do preço de venda com markup divisor

Com os quatro números em mãos:

  1. Some os percentuais: despesas fixas + despesas variáveis + lucro.
  2. Subtraia o resultado de 100%. O que sobra é a fatia do preço que vai repor o custo direto.
  3. Divida o custo direto por essa fatia, em forma decimal.

Exemplo: despesas fixas de 20%, variáveis de 10% e lucro de 15% somam 45%. Sobram 55%, ou 0,55. Um produto com custo direto de R$ 20 fica com preço de R$ 20 ÷ 0,55 = R$ 36,36. Conferindo: dos R$ 36,36, R$ 7,27 vão para as fixas, R$ 3,64 para as variáveis, R$ 5,45 são lucro e R$ 20 repõem o custo.

Aplicando o mesmo divisor a outros itens de uma loja hipotética de presentes:

Produto Custo direto Divisor Preço calculado
Caneca personalizada R$ 12,00 0,55 R$ 21,82
Camiseta estampada R$ 28,00 0,55 R$ 50,91
Kit presente R$ 45,00 0,55 R$ 81,82

Na prática, arredonde para um valor que faça sentido para o cliente, como R$ 21,90 ou R$ 51,90. Se escolher um número abaixo do calculado, como R$ 49,90 para a camiseta, faça isso sabendo quanto de lucro está abrindo mão.

Markup não é somar a porcentagem ao custo

O atalho mais comum, e o mais perigoso, é pegar o custo e somar 45%: R$ 20 + 45% = R$ 29. Parece a mesma coisa, mas não é. Veja o que acontece com R$ 29: 20% de fixas são R$ 5,80, 10% de variáveis são R$ 2,90 e o custo é R$ 20. Sobram R$ 0,30, cerca de 1% de lucro, e não os 15% planejados.

Isso acontece porque as despesas fixas e variáveis são calculadas sobre o preço, e não sobre o custo. O markup divisor já leva isso em conta. Quem prefere multiplicar pode usar o markup multiplicador, que é 1 ÷ 0,55, aproximadamente 1,82: o custo de R$ 20 vezes 1,82 dá praticamente o mesmo preço.

Taxas de cartão e marketplace mudam o preço de cada canal

O mesmo produto pode precisar de preços diferentes em cada canal. Suponha que, na loja física, as variáveis sejam os 10% do exemplo. No marketplace, some uma comissão hipotética de 15%: as variáveis vão a 25%, a soma dos percentuais sobe para 60% e o divisor cai para 0,40. O produto de custo R$ 20 passa a precisar de R$ 50 para entregar o mesmo lucro.

  • tenha uma planilha com um divisor para cada canal (loja, site, marketplace, WhatsApp);
  • inclua o frete grátis que você paga como despesa variável daquele canal;
  • nas vendas parceladas sem juros, use a taxa do parcelamento, que costuma ser maior que a do crédito à vista;
  • revise quando a plataforma ou a maquininha mudar a tabela.

Cupom e desconto também entram na conta: um desconto de 10% sobre R$ 36,36 tira R$ 3,64, mais da metade do lucro de R$ 5,45 do exemplo. Antes de fazer promoção, calcule quantas vendas a mais ela precisa trazer para compensar.

Quando o preço calculado fica acima do mercado

Depois de calcular, pesquise o que os concorrentes cobram. Se o seu valor ficou muito acima, o problema raramente se resolve só cortando a margem. Olhe para:

  • custo de compra: dá para comprar em maior volume, trocar de fornecedor ou mudar a embalagem?
  • despesas fixas: o percentual cai se o faturamento aumentar sem aumentar a estrutura;
  • mix de produtos: nem todo item precisa ter a mesma margem; um produto de entrada mais barato pode puxar a venda de outros com margem maior;
  • diferencial: entrega no mesmo dia, personalização e atendimento próximo justificam preço maior, desde que o cliente perceba. Atendimento que faz o cliente voltar é assunto do guia sobre como fidelizar clientes.

Se o preço de mercado estiver abaixo do seu custo direto, aquele produto talvez não valha a pena para o seu negócio. E quando você decide dar prazo para o cliente pagar, lembre que isso consome dinheiro: acompanhe o efeito no seu fluxo de caixa.

Perguntas frequentes

Qual margem de lucro é considerada boa?

Depende do setor, do giro e da estrutura. Um produto que vende muito e rápido pode trabalhar com margem menor; um item de venda rara precisa de margem maior. Mais útil que copiar um número é conferir se, no fim do mês, sobrou o lucro planejado.

Devo incluir meu salário no cálculo?

Sim. O pró-labore do dono entra nas despesas fixas. Sem ele, o preço parece competitivo, mas o dono trabalha de graça.

De quanto em quanto tempo revisar os preços?

Sempre que o fornecedor reajustar, que uma taxa mudar ou que o faturamento médio variar bastante. Fora isso, uma revisão por trimestre costuma bastar.

O markup serve para quem revende produtos prontos?

Sim, é a situação mais comum. O custo direto é o valor pago ao fornecedor, somado ao frete e aos impostos da compra que não são recuperados depois.

E para quem vende serviço, a conta é a mesma?

A lógica é parecida, mas o principal custo é o tempo. É preciso calcular o valor da hora de trabalho e quanto tempo cada serviço consome, além de materiais e deslocamento.

Checklist para revisar seus preços a cada trimestre

  1. Atualize o custo direto com as últimas notas de compra.
  2. Recalcule o percentual de despesas fixas com o faturamento médio dos últimos três meses.
  3. Confira taxas de maquininha, plataformas e comissões.
  4. Recalcule o divisor de cada canal de venda.
  5. Compare com os concorrentes e decida produto a produto: manter, ajustar ou tirar do catálogo.
  6. Teste o novo valor por algumas semanas e acompanhe o volume vendido.

Mais em Gestão financeira

Tiago da Silva Cândido

Tiago da Silva Cândido é especialista em SEO em Maceió (AL), com atuação em SEO técnico, e-commerce na plataforma VTEX, SaaS e link building. Coordena o link building da AceleraVix e o SEO da D2UN, e já passou por Moskit CRM, Agência FG e Carajás Home Center. É o responsável pelo Folha de Negócios.

2 comentários sobre “Quanto cobrar por um produto: custos, markup e margem de lucro na prática”

Fechado para comentários.

Mapa do site